Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

  • No espelho, olhos fundos.
    Nas mãos, o vazio.
    Nos pés, a medida exata
    de quem nasceu pequeno
    para um mundo excessivo.

    O vácuo, por vezes,
    interrompe-me a respiração,
    como se viver fosse isto:
    uma hesitação entre o abismo
    e o próximo instante.


    Mas o coração — criatura travessa,
    pouco obediente à ruína —
    bate.
    E, mais do que isso, revolta-se.


    Convém notar:
    o que é frágil não é nulo.
    O que é pequeno
    não se confunde com o inexistente.


    Vivo, pois, nessa dança estranha,
    em que o corpo sente
    mais do que consente,
    e guarda em si movimentos
    que não consegue repetir.

  • Ela começa a se preparar cinco horas antes.


    É coisa dela.


    Escolhe a roupa devagar, volta ao espelho, muda de ideia. Há sempre algo a ajustar: um fio de cabelo, um gesto, um perfume. Como se a noite dependesse de pequenos detalhes.


    Ele começa uma hora antes.
    Também nervoso, embora talvez não saiba dar esse nome ao que sente. Escolhe uma camisa, depois outra. Abre o frasco de perfume e exagera na fragrância.


    Percebe.


    Decide trocar de blusa.


    Qual?


    Procura outra com pressa.
    No movimento, derruba o frasco de perfume no chão.


    Pano. Água. Pressa.


    O relógio segue.


    Já deu a hora.


    Ela, pronta.


    Ele ainda procura uma blusa.


    E é entre esses dois gestos que um encontro começa.

  • Sentava nos degraus de um museu, esperando o carro para casa.


    Não estava feliz.
    Também não estava triste.


    A praça em frente estava cheia.
    O pipoqueiro escutava um radinho.
    Eu, sozinha.


    Talvez os olhos um pouco úmidos.
    Tristeza dessas que não pedem explicação.


    Passou um rapaz vendendo balas.
    Ofereceu uma.
    Recusei — falta de recursos.


    Ele seguiu.
    Algum tempo depois voltou.
    Disse que minha cara parecia triste
    (e talvez estivesse mesmo)
    e me deu uma bala.


    Não me deixou feliz.
    Mas voltei para casa
    com uma bala no bolso
    e uma pequena fé no mundo.

  • Nunca me seduziu o silêncio.
    Não ignoro suas vantagens: é cômodo, prudente
    e amplamente celebrado por poupar os outros
    do embaraço de nossas ideias.

    Possui, ademais, a notável virtude
    de fazer parecer profundas até as naturezas mais ocas.

    Cheguei a contemplá-lo com certa benevolência,
    como se contempla um hábito respeitável
    e profundamente desinteressante.

    Mas há em mim um desvio persistente.


    Penso.

    E do pensamento — essa indisciplina da mente —
    nascem opiniões.

    E das opiniões, inevitavelmente, palavras.

    Falo.


    Sem o menor talento para a concordância ornamental
    ou para essa forma tão difundida de cortesia
    que consiste em admirar o que não convence
    e acatar o que não resiste a dois minutos de reflexão.

    Quanto às opiniões alheias, tranquilizo: tolero-as.


    Como se toleram fenômenos inevitáveis
    ou pequenas excentricidades da natureza humana.


    Jamais me ocorreu, entretanto,
    atribuir-lhes aquela gravidade quase sagrada
    que seus autores, comoventemente, lhes conferem.

  • Acordei às seis da manhã, sem despertador, como sempre.
    Moro sozinha. O silêncio do apartamento, os movimentos previsíveis, a sucessão automática dos gestos — tudo obedecia à rotina que sustenta os dias úteis.

    Arrumei-me, alinhei o que era necessário, vesti a personagem funcional que o trabalho exige. Trabalho muito. Recebo o suficiente. A vida, como se sabe, opera dentro dessas margens discretas.

    Quando o relógio já se inclinava para as oito, saí.

    Foi ao cruzar a porta que algo se insinuou.

    Nada visível. Nenhuma ocorrência objetiva. Apenas uma sensação imprecisa, quase espacial, como se eu tivesse entrado num ângulo ligeiramente incorreto do mundo. Caminhei mesmo assim. Conferi a roupa — intacta. A maleta — presente. O passo — regular.

    Ainda assim, persistia a impressão desconcertante de estar sutilmente deslocada.

    As pessoas passavam apressadas. Carros. Ruídos. Tudo em funcionamento exemplar.

    Parei no sinal.

    Ergui os olhos.

    O sol.

    Por um instante, não compreendi o que exatamente me incomodava. A imagem parecia correta demais para ser estranha. Só depois o detalhe se impôs, silencioso e definitivo:
    o sol estava à direita.

    Pisquei. Reorientei o olhar. Tentei reconstruir mentalmente o espaço, como quem revê um cálculo elementar. Não moro no oriente. Nunca morei. Ainda assim, a posição do sol permanecia irrefutável, alheia a qualquer argumento íntimo.

    Foi então que notei algo ainda menos razoável.

    Eu não caminhava em direção ao trabalho.

    Seguia na direção oposta.

    Sem perceber em que ponto ocorrera o desvio, havia avançado exatamente para trás. O trajeto inteiro transcorrera sob perfeita normalidade, como se o erro estivesse rigorosamente integrado à ordem das coisas.

    Parei.

    Não houve susto. Não houve urgência.
    Apenas uma estranha neutralidade.

    Fiquei imóvel por alguns segundos, observando o sol indevidamente posicionado, enquanto uma suspeita quase intolerável começou a se formar — vaga, mas insistente:
    talvez o equívoco não estivesse no mundo.

  • A dor de cabeça pulsa.
    Regular. Inegociável.

    Os olhos pesam numa umidade suspensa,
    um quase gesto que não se completa.

    As pernas balançam, discretas,
    num movimento sem intenção,
    como se o corpo procurasse um ponto
    que não chega a se fixar.

    A mente, exausta de si,
    já não formula, já não reage.
    Apenas cede em ruído.
    E então, sem transição,
    algo afrouxa.

    Nada muda.

    Ainda assim, algo pesa menos.
    O instante não melhora —
    apenas deixa de resistir.

Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

Pular para o conteúdo ↓