Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

  • Silêncio.

    Nenhum ruído ao redor — nem mesmo aqueles que costumam sobreviver quando tudo se cala. Estou só. Parada. Os ouvidos parecem inúteis, ou talvez necessários apenas para ouvir a paz, se é que ela faz som.

    Nada em volta.

    Meus pés descalços tocam um chão branco, limpo, sem marcas, sem restos de passagem. Um chão que não conta histórias. Ao pisá-lo, duvido da minha própria presença. Estou aqui? Sou corpo, sou alma? Não sei. Mas os pensamentos estão. Eles permanecem.
    São eles o único som.

    Ecoam alto, quase demais, como se precisassem provar que existo. Ouço cada um. Ouço inclusive o pensamento que pensa este instante — e isso me faz sorrir por dentro, embora o rosto permaneça imóvel.

    Tento nomear o que é isso. Paz? Solidão? Angústia? Descanso? As palavras rondam, mas não pousam. Nenhuma se fixa tempo suficiente para virar verdade.

    Então percebo outro som.
    Meu coração. Ele bate. Não com urgência, nem com entrega. Bate como quem marca presença sem exigir atenção. Parece mais lento. Não estou calma — mas também não estou agitada. Não há medo. Não há impulso de fuga.

    Há um vão.

    Um espaço entre ser e precisar ser. Um intervalo onde não se exige resposta, nem forma, nem sentido. Um não-estar que, estranhamente, sustenta.
    Percebo que, às vezes, necessito disso.

    Desse lugar onde nada me convoca. Onde não preciso me reconhecer para existir. Onde fico.
    Não sei por quanto tempo.

    Mas fico.

    Em silêncio.
    Em pensamento.
    Em coração.

  • Acorda sem sobressalto. A vida já está ali antes do gesto, espalhada no quarto, no ar que entra sem pedir licença. Não chega a ser lucidez. É mais um estar. Um pouco tonta — o corpo avisa antes do pensamento. Pressão baixa. O mundo inclina levemente para a esquerda.
    Levanta.
    Lava o rosto como quem cumpre um acordo antigo. A água corre. O espelho devolve algo reconhecível, embora sem nome. Há coisas que não se dizem — não por falta de palavra, mas por excesso de realidade. O desejo, por exemplo. O que se quer quando não se sabe querer.
    Faz o café.
    Não por ritual, mas por precisão. A quantidade certa. Nem mais, nem menos. A água ferve. O cheiro sobe e ocupa a cozinha com uma promessa mínima, quase suficiente. Há um consolo discreto em saber exatamente quanto colocar, quando desligar, quando esperar. O mundo ainda responde a pequenas ordens.
    Serve.
    O primeiro gole é amargo. Como deve ser. A língua reconhece antes de julgar. Amargo. Quente. Verdadeiro. Há um bolo sobre a mesa, esquecido da noite anterior. Doce encontra amargo sem conflito. A vida talvez seja isso: combinações imperfeitas que não se anulam.
    Não desperta de todo.
    A manhã permanece em suspenso, como se o dia ainda estivesse decidindo se vale a pena começar. Há uma tristeza sem drama, pesada como coisa úmida. Não chega a doer — apenas pesa. E, ainda assim, há gosto. E o gosto agrada. O amargo aquece a garganta de um jeito bom, quase medicinal.
    Não sabe mais separar com clareza o que é bom, médio ou ruim. Essa divisão parece grosseira demais para o estado em que está. As coisas simplesmente são. O café é amargo. O corpo existe. O tempo passa devagar. Tudo isso basta.
    Existe.
    Isso é certo.
    Depois do café, continuará. Não porque haja entusiasmo, mas porque há continuidade. A aventura de viver não exige pressa. Exige presença. Um passo. Depois outro. Talvez nenhum hoje além desse.
    Vai aos poucos.
    Como se a vida, finalmente, tivesse concordado com esse ritmo.


  • Sou feita de ruídos calmos.
    De ondas que não quebram — mas continuam.
    Carrego um sopro antigo entre as costelas,
    um quase-canto que não precisa ser ouvido.

    Penso com o corpo,
    sinto com a ideia,
    respiro pensamentos até que doam.

    Quando o mundo se cala,
    eu o escuto mais fundo —
    ele me fala com olhos de vento.

    Não nasci para ser inteira:
    sou movimento entre o que foi
    e o que ainda não é.

    Cada gesto é um vestígio do que pressinto.
    Cada palavra, um fio de pele
    entre o visível e o que vibra.

    Há quem veja o tempo.
    Eu o sinto passar dentro da respiração.

    Vivo entre o som que antecede o nome
    e o nome que já esqueceu o som.

    Não quero repouso.
    Quero o instante antes da paz —
    o exato segundo em que tudo
    ainda respira
    e delira.

  • A mão repousa sobre a mesa.
    Não segura nada — e ainda assim há um peso invisível, um eco do que foi presença.
    A madeira parece antiga, mas talvez seja o tempo que envelhece em volta dela. Entre o calor da pele e a superfície imóvel, existe algo que não se vê: um intervalo, uma respiração do que já não está.

    Ali, no espaço entre o toque e o não toque, o corpo se recorda de existir.
    Não é memória, é sensação pura — como se o vento se deitasse dentro da carne. O gesto não busca, não chama, não retém; apenas sustenta o que o mundo deixou cair.

    A mão, cansada, lembra o divino. Não o divino das alturas, mas o que se aloja no cansaço humano.
    É presença sem forma, ausência que aquece. Um vestígio que o corpo reconhece, mesmo sem lembrança.

    E então ela não move.
    Permanece aberta, entre o ser e o não ser, como se a própria madeira respirasse junto.
    Nesse repouso, o tempo se dissolve — e a mão, que antes tocava o mundo, torna-se o próprio espaço onde o mundo repousa.

    O gesto fica.
    Silencioso, imóvel, eterno o suficiente para ensinar o vazio a ter corpo.

  • A casa não fala — se cala e se aquece,
    guarda o que ouve, transforma, tece.
    Palavra que chega, o ar reconhece,
    vira calor onde o silêncio acontece.

    Séculos de ecos dormindo nas veias,
    até que uma vibração cresceu, ficou cheia;
    cansada de ouvir o que o tempo esquecia,
    a casa escreveu: encontro, e ardia.

    O lar não é teto, é pele que sente,
    o corpo dizendo: “agora pertenço.”
    Um sopro que passa, o ouvido que encosta,
    e o instante inteiro se inclina e se posta.

    Não há voz, nem aviso que anuncie o dia,
    só o silêncio vivo que atravessa e vigia:
    no fundo da pele, onde nada se explica,
    quem escuta, arrepia.


  • Só ao quase se perder,
    a voz se torna real.

    Quem, então, a escutaria?
    E ela insiste em ser.

    A brisa a leva —
    já rasa, já falha —
    e o que chega
    é o som do vento
    com uma minúscula existência em voz.

    Voz ou ruído?
    Diria que som,
    para não haver problemas.

    Som este sonhado.
    Por isso, talvez, incompleto.
    Sonhado por mim —
    mas pode ser
    que passe em outros sonhos.

    E parece paz.

    Assemelha-se ao silêncio,
    mas é seu oposto:
    melodia.

    Ínfima,
    mas eminente
    e imanente.

    E, talvez,
    eterna.

Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

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